Equilibrando o Barco da Liderança

Equilibrando o barco da liderança

Por Edson J. Araújo Filho

 

Lastro é qualquer matéria pesada colocada no fundo de uma embarcação para dar-lhe equilíbrio. Grandes navios utilizam toneladas de água como lastro para manter o equilíbrio, especialmente quando enfrentam ventos fortes e tempestades. Se a sua carreira é uma navio, ele está lastreado com o quê?

 

Separei três dos lastros mais usados na liderança e os perigos de usá-los inadequadamente.

Lastro da Autoridade

 

Toda equipe precisa de um líder. De preferência um que, de fato, exerça a liderança. Que tome a iniciativa. Que demonstre atitude firme quando está diante de uma situação desafiadora. Que assuma a responsabilidade. Quando age assim, o líder inspira a equipe, a começar por inspirar respeito.

 

O problema é que, mal dosado, o lastro da autoridade pode levar os liderados a obedecer ao líder, mas não a segui-lo; o respeito dá lugar ao medo de retaliação, de punição; ao invés de inspirar, causa repúdio.

 

Há lideres que lastreiam sua liderança apenas na autoridade que julgam ter sobre sua equipe. Explícita ou implicitamente passam a mensagem aos subordinados de “a quem eles devem obediência”.

 

Outro efeito colateral do mau uso do lastro da autoridade na liderança é que ela pode ser entendida pela equipe como um recurso de “autoafirmação” do líder – que é a tentativa de se impor à aceitação das pessoas, não porque é um líder, mas simplesmente porque está investido de autoridade. Em outras palavras, quando o líder usa a autoridade de maneira indiscriminada está demonstrando que não tem as competências comportamentais necessárias à liderança e usa a autoridade como capa de imposição. Adora o ditado “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

 

O resultado da liderança lastreada apenas na autoridade é a falta de comprometimento e engajamento da equipe, que terão suas ações motivadas não pelo respeito, mas sim pelo receio das consequências. Na primeira oportunidade seus membros não hesitarão em desembarcar e buscar outro líder.

 

A autoridade que faz diferença na liderança é aquela conquistada pelo respeito, que nasce do entendimento que o líder deu a ordem porque é o melhor para a equipe. É o tipo de autoridade que o líder construiu ao longo da convivência com a equipe, sempre demonstrando ser coerente, prudente e aberto ao diálogo.

 

Lastro do Desempenho

 

Um dos motivadores do ser humano é o reconhecimento. Ser reconhecido pelo que se fez é ótimo. Como se diz, massageia o ego e faz bem. Eis o ponto: o reconhecimento é bom para quem fez. Porém, muitos líderes têm a ilusão de que o que ele fez será ótimo para os outros também e usa isso como seu principal lastro de liderança. Infelizmente isso não funciona. Não por muito tempo.

 

É claro que os resultados que o líder conseguiu ao longo de sua trajetória profissional podem, em algum momento e de acordo com o contexto, servirem de motivação para a equipe. Saber que seu gerente ou diretor executivo realizou grandes feitos ao longo da carreira é ótimo, especialmente se o momento atual da empresa é desafiador. Mas os resultados obtidos, por si só, não podem ser o único lastro para exercer a liderança. Sim, os resultados que você teve podem conduzi-lo a uma posição de liderança, mas não significa que, por isso, você será um bom líder. E aqui precisamos analisar dois pontos:

 

Primeiro, pode acontecer de um profissional ser colocado em uma posição de liderança – principalmente na média gestão – com base nos resultados que teve enquanto exercia uma atividade subordinada e lá ter ido muito bem e batido todas as suas metas. Mas não significa, necessariamente, que ele tenha as competências comportamentais para exercer a liderança. E, não raro, acontece de seu desempenho como líder ser aquém do esperado – destaque ao “esperado” porque era apenas isso, uma expectativa sem base concreta, uma vez que o profissional não tinha as qualidades necessárias para ser líder. A consequência disso é a queima de boa parte, senão de todo o capital profissional que ele tinha acumulado na carreira, pagando muitas vezes com uma demissão para a qual a alta gestão contribuiu sobremaneira.

 

Segundo, no mundo de hoje, onde tudo acontece de forma muito veloz, o resultado de ontem não garante o resultado de hoje, que dirá os resultados de amanhã. Ambicionar posições de liderança é bem-vindo, mas requer preparo. Preparo para saber exatamente o que aquela posição requer de quem estiver lá – tanto em termos de conhecimento específico para a função quanto de conhecimento para liderar de forma adequada. Você poderá ser conduzido para uma posição de liderança pelo que já fez, mas só permanecerá lá pelo que você fará.

 

Então, não adiantará liderar com um livro de feitos embaixo do braço. Como já disse acima, isso tem serventia na hora de ser contratado. Depois, ninguém ligará mais para isso. Até porque, hoje, quando a liderança comportamental é a tônica, as equipes precisam que seu líder, que já fez tanto, contribua para que eles, sob a sua liderança, façam mais e melhor. Em outras palavras, que o líder use sua experiência de resultados para contribuir para que a equipe performe melhor e seus membros cresçam na carreira.

 

O resultado da liderança lastreada apenas no desempenho (no que você fez) é a arrogância. Com o tempo o lastro se torna tão instável que o líder é levado a achar que está acima dos demais, não apenas hierarquicamente, mas como profissional e como pessoa. Passa a viver se gabando do que já fez no passado, mas não faz nada de novo hoje. E sem criatividade ou inovação, vive no ontem. Mais cedo ou mais tarde, perde a influência e não conseguirá mais inspirar seu time a atingir suas metas.

 

Um dos remédios para não tornar sua liderança refém do lastro do desempenho é compreender que, no mundo complexo e mutante de hoje, o que foi feito pode não ter nenhuma aplicação amanhã exceto se houver inovação. E a inovação só acontece quando há contínuo aprendizado. É para isso que servem os feitos do passado – e só para isso – para reflexão e aprendizado. E como concluiu Sócrates, saber que não se sabe tudo, ou seja, que é preciso estar em constante aprendizado, pois isso o coloca em vantagem sobre quem pensa que já sabe alguma coisa.

 

Lastro do Relacionamento

 

Relacionamento interpessoal é muito importante, estudado e incentivado quando o assunto é gestão e liderança. Porém torna-se um problema usar o relacionamento como lastro principal da liderança. Para ilustrar vou contar uma breve historia:

 

No setor de contabilidade e finanças a gestora gostava de trazer salgadinhos, bombons e outras guloseimas para a equipe. Levava para almoçar, trazia lembrancinhas para cada um do setor quando viajava. Como dizia, o setor era uma família. Apesar disso, em dois anos, todos os membros foram trocados três vezes. Sim, três equipes diferentes em dois anos. O resultado eram prazos estourados, balanços não entregues e conciliações pendentes. Nas reuniões, quando questionada, a gestora sempre dizia: “Fulano saiu. Não sei o que acontece. Trato como uma família, mas são umas traíras. Por pouco a mais no salário deixam tudo e vão embora. Está tudo atrasado porque preciso treinar outros no lugar”.

 

Nesse exemplo real, a líder acreditava que a relação com seus subordinados era em um nível tão intimo que lhe garantiria fidelidade e serventia a qualquer hora e em qualquer situação. Mas não era assim, pois a relação na verdade se baseava na compra (com guloseimas e presentes) de uma fidelidade que não tinha correspondência nas atitudes dela enquanto líder e deles enquanto subordinados. Além disso, não importava a relação que ela imaginava ter, mas a que existia de fato.

 

Uma relação de liderança nunca deve ser construída sobre o “faça por mim e eu faço por você”. Esse tipo de relação dura até o momento em que alguém oferecer mais. Às vezes um pouquinho mais.

 

Na relação de liderança o relacionamento precisa ser construído sobre o tripé do respeito, da cordialidade e da responsabilidade. Respeito mútuo entre líder e subordinado. Cordialidade no trato, compreendendo que antes de serem líder e subordinado, são pessoas. Responsabilidade de exercer cada um sua função dentro dos parâmetros de seus deveres e direitos no âmbito da organização onde atuam.

 

O lastro Equilibrado

 

Em liderança não há fórmula exata. Mas a medida certa é sempre a que leva ao equilíbrio.

 

O líder deve ser capaz de moldar seu estilo ao contexto das necessidades da organização e na medida necessária para estimular as competências comportamentais de seus colaboradores, usando seu histórico de realizações como experiências produtivas para o que farão juntos. O resultado será a construção de uma autoridade inspirada pelo respeito e o estabelecimento de um relacionamento saudável no ambiente de trabalho.

 

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Sucesso!